O Taqsim Tabla (solo livre) e a Arte da Dança do Ventre. (Vitor Abud Hiar)
O que cabe a um Percussionista explanar sobre Dança do Ventre ? Bem, essa é uma questão bastante complexapois se de um lado ele não está apto a falar sobre questões técnicas referentes a dança em si, do outro é detentor e conhecedor do principal subsídio que dará à Bailarina condições de se apresentar em um show, qual seja, o ritmo e suas variações. Há, portanto, um lado negativo e positivo em questão.
A importância do conhecimento de um percussionista para a Dança do Ventre remonta no Brasil desde tempos passados. Na década dos anos 70, antes do início dos ensinamentos de Shahrazad Sharkey, a arte técnica da Dança do Ventre era totalmente desconhecida. As vestimentas usadas na época eram improvisadas pelas própria Bailarinas (a luxuosidade das vestimentas para as apresentações de Dança do Ventre hoje utilizadas no Brasil, seguem o estilo Shahrazad). Na época, Fuad Haidamus, que já ostentava o título de maior derbakista do Brasil, fornecia algumas "dicas" para as Bailarinas que iriam se apresentar, tentando com seu conhecimento em percussão ajudar da melhor maneira possível.
Mas quais dicas eram essas ? Em que Haidamus se baseava para poder ajudar as Bailarinas da época ? Bem, para chegarmos a uma resposta viável, há necessidade de um raciocínio lógico e mais minucioso. Sabemos que Taqsim Tabla é o ato de improvisar na Derbakke (Tabla) sem uma percussão base ( falamos aqui do solo livre ). Não há regras para a criação de um Taqsim Tabla, porém, há alguns subsídios importantes dos quais o percussionista deve respeitar.
É certo que o conhecido modelo usado no solo de Tabla clássico (apresentado por Haidamus no Brasil) usando floreados sempre em números pares, ou seja, duas repetições e um corte, ou quatro repetições e um corte é um método reconhecidamente utilizado em larga escala por músicos do mundo inteiro.
Muitas Bailarias consideram um grande desafio dançar um Taqsim Tabla, uma vez que técnica de dança e percepção rítmica se consubstanciam intrinsecamente. Há vários ensinamentos que, na tentativa de amenizar ou, então, solucionar tal problemática, analisam estruturas de solos, elencam os ritmos mais usados etc.. . Digo que isso ajuda, mas, muito pouco. É claro que não dá para se descobrir precisamente o que se passa na mentalidade do Percussionista que está atuando no momento. Fuad Haidamus, quando praticamente "reinventou" o Taqsim Tabla no Brasil, apresentou uma arte que se resumia em dois elementos principais: Raciocínio e técnica. No solo improvisado de derbakke não existe reflexo ( Todo toque está diretamente ligado a um raciocínio prévio do músico ). No Brasil, a mesma técnica clássica usada por Haidamus na década dos anos 70, é copiada por quase todos os músicos da atualidade.
Pois bem, já devemos ter notado que a grande maioria das Bailarias que dançam solos de Taqsim Tabla, geralmente, se apresentam ao lado de um mesmo músico percussionista ( fato que ocorre mundialmente ). Ora, não é raro de se ver Percussionistas e Bailarinas de Dança do Ventre casarem - se e trabalharem juntos. Por que isso ocorre ? Quando uma Bailarina dança uma improvisação de solo de Tabla, ela precisa necessariamente "perceber" de forma ágil o que o Percussionista vai apresentar - jogar - na seqüência de seu solo improvisado. Se o reflexo é utilizado ou não na Dança do Ventre, essa é uma resposta que foge totalmente de nossa alçada. (O músico percussionista ao realizar um solo de Taqsim, trabalha mente e técnica, ou seja, ele pensa e ao mesmo tempo age (toca). Quando um percussionista erra uma seqüência, significa que a sua técnica não está em sintonia com seu raciocínio ou, então, vice-versa. É preciso, assim, "treinar" melhor essa relação).
Improvisar na Derbakke não é tocar quatro ou cinco tipos de ritmos em uma sequência combinando-os. É "criar" enfeites e variações tendo como subsídio esses ritmos.
Se uma Bailarina apresenta-se várias vezes ao lado de um mesmo Percussionista, ela consegue alargar essa percepção, uma vez que já conhece "as manias" daquele específico músico, ou seja, a forma que ele toca e quais floreados e enfeites gosta exageradamente de usar ( daí a expressão "mania" utilizada ). O reconhecimento, nesses casos, se torna bem mais fácil e, por conseqüência, mais rápido. As manias percussivas ou rítmicas são, na verdade, os elementos pelos quais o músico irá gerar sua fórmula particular - estilo particular - que, evidentemente, será utilizada na criação de todos os seus solos, sejam eles improvisados ou não.
Todos os enfeites por mais diversificados que possam ser terão algo familiar, ou seja, pertencerão a uma mesma fórmula, a uma única técnica e estilo. É essa fórmula particular que a Bailarina precisa conhecer e absorver. Cada percussionista tem um gosto exagerado por determinados enfeites e ritmos e , com absoluta certeza, deixara fluir em todos os solos improvisados. O ritmo mais preferido e usado como subsídio nos solos de improvisação é, evidentemente, o Maqsoum e suas demais ramificações rítmicas.
A Bailarina precisa sempre ter em mente que apesar da improvisação na Tabla ser infinitamente livre, todo percussionista tem um hábito, um costume, um gosto exageradamente próprio (manias), e sempre, sempre irá colocá-lo no topo central de sua improvisação. É evidente que a improvisação "infinitamente livre" deve ser realizada com um certo cuidado, respeitando "sempre" o campo das variações rítmicas exclusivamente árabes. Em opinião particular, é um grande erro jogarmos um samba no meio de um solo de derbakke. Condeno também misturar outros ritmos como a Salsa, o Merengue, Ritmos Flamencos (muito na moda ) etc.. . O solo de Taqsim Tabla deve ser mantido na sua tradicionalidade e originalidade rítmica. Aqui cabe ainda uma outra importante questão. É certo que desde a sua primeira apresentação ( Hammouda (Egito) e Haidamus (Brasil), o solo de Tabla pouco evoluiu. Mas o que essa informação tem de importante para uma Bailarina de Dança do Ventre ? Bem, se o solo de tabla pouco evoluiu, significa que a grande maioria dos percussionistas árabes possuem uma certa uniformidade técnica, o que muito facilita os estudos tanto para bailarinas ( percepção rítmica ), quanto para músicos iniciantes, intermediários e avançados ( percepção e técnica correta para executar tal ritmo ). É importante dizer que essa uniformidade técnica também pode ser compreendida ou interpretada como a existência imperativa de fórmulas parecidas. Geralmente, um músico pode ter fórmula parecida, semelhante com a de outro na construção de seus solos, mas, nunca essas fórmulas serão iguais, idênticas. A técnica de um artista pode ser parecida com a de a outro, mas nunca igual ( Um escultor pode esculpir semelhantemente, mas nunca igual ao grande Michelangelo ) Dessa maneira, uma Bailarina precisa necessariamente conhecer e registrar as técnicas mais comuns usadas pelos mais diversos mestres de tabla, e, munidas dessas informações, tentar, em um primeiro momento, perceber as manias do músico com quem vai se apresentar. Não pergunte o que ele vai apresentar, mas, sim, do que ele mais gosta de apresentar ( rítmos, variações, tipos de floreados etc.. ). Fuad Haidamus dizia à Bailarina o que ele mais gostava de tocar e nunca o que ele iria tocar, pois, se assim fizesse, não haveria taqsim tabla, uma vez que ocorreu uma quebra na liberdade da improvisação. É evidente que, para tanto, alguns ensaios deverão ser realizados obrigatoriamente. Lembremos ainda que quanto mais registro de técnicas de percussão uma Bailarina tiver, mais rápido e fácil será identificar fórmula usada pelo músico, sempre, claro, pelo caminho mais curto, que é através da percepção primária de seus gostos mais comuns. gostos, hábitos > fórmula - técnica - estilo > solo criado Lembre-se: Manias percussivas ou rítmicas: Gosto exageradamente particular que cada percussionista tem em relação a um conjunto de ritmos e floreados técnicos ( É o que ele acha mais bonito ). Resultam no conjunto de elementos pelos quais o músico criará seu método particular - fórmula particular - pelo qual irá desenvolver todos seus solos. Fórmula, técnica e estilo: Métodos usados pelo percussionista para criar seus solos. Uniformidade técnica e estilo: Certa semelhança no jeito de se executar solos de taksim Tabla. fórmulas parecidas (imperatividade): Devido ao pouco desenvolvimento da arte do Tabla Solo, os métodos usados pelos músicos se tornaram obrigatoriamente análogos.
 | Vou compartilhar esse texto no meu blog em breve, obrigada! Vou colocar seu site como referência. |
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